quarta-feira, 25 de setembro de 2013

# Underneath The Skin There's a Human


Era uma noite como outra qualquer e deambulava pelas ruas cobertas de gente. O fim do Verão não dava de si, o calor abrasador que se fazia sentir era cheio e envolvente. Ao longe, avistou o mesmo rapaz que a abordara horas antes mas desta vez acompanhado por um homem possivelmente de meia idade. O rapaz acenou-lhe e com um passo descontraído, ela aproximou-se. Agora de perto reparara no senhor sentado, de cabelos meio grisalhos e trajes simples. Não era um senhor pomposo, era um senhor da serra. Os seus olhos postos nela intrigavam-na e traziam-lhe afabilidade, era um olhar honesto e cortês. Falara por minutos com o rapaz e encontrava-se na despedida, pois nem sabia se o voltaria a ver. Então de repente os lábios do senhor movem-se e as suas palavras são inesperadas. És linda, parabéns. Sentiu-se completamente apanhada desprevenida, desnorteada. Tudo de bom para ti na tua vida, que sejas feliz e alcances os teus sonhos. Tudo de bom. As dóceis palavras proferidas aterram no seu ser com tamanha incredulidade. Ela agradece continuamente, com um sorriso tímido. De regresso a casa, aquelas palavras ecoam na sua mente. És linda, parabéns. Como é que é possível? És linda, parabéns. Sente-se enternecer e certamente explicação não a consegue encontrar. És linda, parabéns. Não era a primeira vez que ouvia comentários deste género mas desta vez tinha sido diferente. Um estranho, sem qualquer intenção de ter algo em troca ou de a arrebatar. Apenas um comentário genuíno, sem gozo ou maldade, na sua clareza e simplicidade. E pela primeira vez em muito tempo, ela não desprezara tal comentário como um elogio sem fundamento. Chegou a casa, colocou-se em frente ao espelho e por momentos baixou alguma qualquer barreira que a toldava. Por ínfimos segundos, inspirou as palavras do senhor e sentiu lágrimas deslizarem suavemente pela sua face deixando-a a brilhar como uma superfície bela e polida. Por uma pequenina fracção de segundos, ela via, ela realmente via o que o senhor dizia, ela observava algo mais que prendia o seu olhar ao espelho, que a impelia a olhar mais e mais de perto tentando perceber o que mudara. Por momentos e momentos apenas, ela viu o que outros clamavam ver, ela sentiu um gostinho de verdade em todas as palavras que rebaixara. E num abrir e fechar de olhos, tudo voltara ao habitual. O espelho já a repelia e tudo o que observava seria ordinário e comum. Ainda não é hora mas um progresso foi feito e no coração aloja-se a esperança. Talvez, e só talvez, haja mesmo algo mais a sentir e a perceber.

3 comentários:

Sophie Coldheart disse...

Gostei tanto, Joana! A maneira como descreves tudo, o sentimento que está impresso nas tuas palavras, a situação! Gostei mesmo muito! Por vezes nós temos uma visão errada daquilo que vemos no espelho!

Emilie Lorena disse...

Senti-me dentro do teu texto! Maravilhoso!!

Idyva Silva disse...

Maravilhoso! As tuas palavras são mesmo sentidas :)
Van Silva*
Olá, nós somos a Idyva Silva, autoras do blogue Ideias Sem Fim, regressámos à Blogosfera * Seguimos :)
http://ideias-sem-fim.blogspot.pt/